“Um unicórnio na América Latina é apenas consequência da solução de um grande problema”

Nosso Partner Rodrigo Baer compartilha sua visão sobre o crescimento do número de unicórnios na América Latina, em entrevista exclusiva para o Latin American Business Stories – LABS

Por FABIANE ZIOLLA MENEZES

A Redpoint eventures é uma empresa de venture capital que investe em startups com recursos de dois fundos parceiros do Vale do Silício, o Redpoint Ventures e o e.ventures, que começaram por lá no fim da década de 1990, além de outros fundos globais na China, Rússia, Alemanha e Japão.

O Redpoint, em particular, foi um dos primeiros investidores do Netflix nos Estados Unidos. O fundo tem cerca de US$ 4 bilhões sob gestão e já ajudou a fundar mais de 400 companhias. Já o e.ventures tem foco em negócios que unem internet e mídia móvel e um longo portfólio nesse sentido. Foi com toda essa bagagem que a empresa desembarcou na América Latina em 2012.

Na América Latina, a Redpoint eventures já investiu em startups como Creditas, Gympass, Olist, Pipefy, Rappi e, bom, a lista continua…São mais de 30 companhias investidas desde então – e R$ 1,2 bilhão sob gestão, segundo entrevista do sócio Romero Rodrigues ao Neofeed.

Há cinco anos, a empresa também se juntou ao Itaú Unibanco para criar o Cubo Itaú, atualmente o maior hub de inovação e empreendedorismo da região.

Rodrigo Baer, um dos sócios da Redpoint eventures, conversou com o LABS sobre 2019, ano que deve ser de recorde em investimentos em startups na América Latina, especialmente no Brasil. Confira:

LABS – Desde 2017 estamos vivendo um novo boom de investimentos em startups, com o nascimento de uma segunda leva de unicórnios no Brasil e na América Latina. Alguns acreditam que isso se deve ao amadurecimento tanto dos empreendimentos quanto dos empreendedores. Como explica esse momento?

Baer – O aparecimento desses rounds maiores e desses unicórnios, na verdade, é reflexo de algo que que aconteceu há cinco, sete anos atrás, quando os primeiros grandes fundos de venture foram levantados. O primeiro fundo grande da Monashees foi em 2011, depois veio o Kaszek Ventures, também em 2011, e depois a Redpoint, em 2012. E isso criou o portfólio de seed e de Série A nessa época, que foi maturar [e se transformar], cinco ou sete anos depois, em rounds de Série C e B.

E é por isso que hoje a gente vê essa proliferação de unicórnios e que é, na verdade, simplesmente uma maturação de investimentos de venture capital que tinham escala. São portfólios de 30 empresas [em] cada um [desses fundos], então no final a gente acaba falando de 100 empresas que vão passando pelas taxas de mortalidade e que hoje se convertem em um número significativo de empresas que conseguem alimentar fundos maiores. 

LABS – Pensar em negócios com DNA global é algo em comum a essas startups que hoje atraem grandes investimentos? 

Baer Eu acho que depende um pouquinho da história de cada empresa. Alguns dos negócios precisam ser efetivamente globais para justificar os investimentos maiores. Outros negócios, como aqueles que mexem com os bancos e as operadoras de planos de saúde, por exemplo, podem ser, sim, grandes o suficiente no Brasil para justificar [grandes investimentos]. 

Dito isso, grande parte dos mercados da América Latina ainda está muito incipiente e atrasada em relação ao Brasil. Por isso que tanto Nubank, quanto Creditas e outras empresas que estão levantando esses rounds maiores começaram a olhar para oportunidades no México, na Argentina, na Colômbia, como forma de expansão do mercado endereçável, até como forma de justificar esses grandes investimentos.

Ao mesmo tempo, há empresa como o Pipefy que, por excelência, são empresas globais desde o seu primeiro dia porque a oportunidade dentro do país ainda é pequena para suportar investimentos de venture capital.

LABS – Aliás, o que veio primeiro: esse pensamento global que atraiu os investimentos dos maiores fundos, ou o inverso?

Baer – Novamente, isso depende um pouco da história de cada uma das empresas. O Gympass começou a ir para fora antes mesmo de ter rounds maiores internacionais. Já no caso de Nubank e Creditas, é o contrário, são empresas que, por natureza, já seriam grandes dentro do Brasil e que usaram esses recursos maiores para começar a olhar para fora. 

O que é importante é que ir para fora consome muitos recursos, então em raros casos será viável fazer isso sem grandes rounds de investimento. As duas coisas andam meio de mãos dadas: a possibilidade de se fazer rounds maiores e por isso expandir para fora, e o pensamento de se tornar mais global. As pessoas só começam a sonhar quando elas enxergam essa possibilidade.

LABS – Por que os unicórnios são importantes para o Brasil e a América Latina?

Baer – Eles são uma consequência de problemas gigantes que estão sendo resolvidos de uma maneira muito mais eficiente pelas startups. E se isso estiver acontecendo, essas empresas vão ganhar muito dinheiro e, por consequência, vão valer muito dinheiro. E aí, o unicórnio é apenas uma consequência de a gente estar resolvendo um grande problema. E eu nem preciso bater na tecla de que a América Latina é não só um mercado gigante, de 600 milhões de pessoas, com PIB significativo, e mas um lugar de problemas homéricos.

Por outro lado, para o ecossistema de startups, você começar a ter unicórnios, tem uma grande importância: fazer o mercado global de capital olhar para o Brasil e a América Latina e acreditar que aqui a gente pode construir grandes empresas de tecnologia. 

LABS – O fato de vcs terem sido pioneiros América Latina os coloca em uma posição de vantagem sobre outros fundos que estão chegando agora, como o SoftBank?

Baer – Todo mundo que entra mais cedo acaba tendo uma vantagem, porque esse é um jogo de reputação e rede de contatos. Você cria histórias de sucesso que viram referência para que os melhores empreendedores queiram trabalhar com você, Mas eu não acho que a gente compete diretamente com o SoftBank. Estamos em estágios da cadeia muito diferentes. A gente acaba criando um pipeline em que empresas como SoftBank vão entrar.

LABS – A chegada desses fundos faz vocês se posicionarem de uma maneira diferente ou traçarem novas estratégias? Quais?

Baer – Muda um pouco, porque com a entrada desses fundos mais de growth. Tem novos fundos entrando em early [stage] que vão tornar os negócios mais competitivos e as rodadas mais rápidas, e eu acho isso super saudável para o ecossistema e para o empreendedor. A gente vai ter mais abundância de capital em séries A, B e C e isso permite que as empresas andem mais rápido, que o empreendedor não gaste seis meses fazendo fund raising. 

Agora, a entrada dos fundos de growth e length, essa sim tem um impacto muito grande no ecossistema porque ela muda o horizonte. Antes a gente olhava empresas que sairiam menores, porque não se tinha essa possibilidade de ter rounds de US$ 300 milhões, US$ 400 milhões ou US$ 500 milhões para continuar financiando o crescimento dessas empresas. 

Então a gente começa a olhar para empresas que vão ficar maiores, com um horizonte mais longo de investimento, porque acaba atrasando o tempo que a gente leva para sair [do investimento e da sociedade da empresa]. Por outro lado, são empresas com maior impacto na sociedade, que vão gerar mais valor.